
A Polícia Federal concluiu o inquérito que investigava a morte do delegado Michel Brasil Saliba, 39 anos, baleado durante uma operação no dia 2 de julho deste ano, em Passo Fundo, no norte do Estado. A apuração apontou que os disparos partiram da arma utilizada pelo policial militar afastado Daniel Machado Figueiró, que estava no apartamento junto com a companheira no momento da ação.
A conclusão foi baseada em exames periciais no local, análises balísticas e de DNA, e também extrações de dados de dispositivos eletrônicos e análise de imagens de câmeras de segurança, além da coleta de depoimentos. Conforme o delegado Alessandro Maciel Lopes, superintendente regional da Polícia Federal, Daniel tinha conhecimento sobre a operação.
— Quando os policiais entraram na casa, deram voz de comando e informaram que se tratava de uma ação da Polícia Federa. Todos estavam uniformizados com coletes balísticos e o local estava iluminado. Com isso, na investigação, refutamos completamente a possibilidade de equívoco ou engano por parte do sujeito que desferiu os tiros — disse Lopes.
Ainda de acordo com o superintendente, Daniel utilizou a própria mulher como escudo e disparou oito tiros contra os agentes, sendo que dois acertaram Saliba.
O brigadiano foi indiciado por homicídio doloso qualificado e por três tentativas de homicídio doloso qualificado contra os demais policiais que participavam da ação. O inquérito policial foi encaminhado ao Ministério Público Federal e ao Poder Judiciário para o prosseguimento do processo.
Daniel também passou a ser investigado pelo esquema de contrabando de mercadorias provenientes de Miami, nos Estados Unidos.
Relembre o caso
O delegado da Polícia Federal Michel Brasil Saliba, foi baleado durante uma operação no dia 2 de julho de 2026 e morreu um dia depois.
Ele foi atingido por dois disparos de arma de fogo na região do tórax e das costas durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em um apartamento na Rua José Bonifácio, no bairro Vila Rodrigues.
Por conta da gravidade dos ferimentos, Saliba ficou internado no Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) até a madrugada do dia 3, quando acabou morrendo.
O autor dos disparos seria o policial militar Daniel Machado Figueiró, do 3º Regimento de Polícia Montada. Conforme as informações, o alvo do mandado era a companheira do PM, que de acordo com a investigação, participava de um esquema de contrabando de mercadorias provenientes de Miami, nos Estados Unidos.
O policial militar foi preso em flagrante. Na época, a defesa de Daniel se manifestou afirmando que o cliente não havia identificado quem estava arrombando a porta e ele agiu instintivamente.
Pouco mais de um mês dos acontecimentos, a Polícia Federal realizou a reconstituição dos fatos com o objetivo esclarecer a dinâmica da ação policial e reconstruir os movimentos realizados dentro do imóvel e detalhar a sequência dos fatos que culminaram no confronto.
Em nota, a Brigada Militar se manifestou após a conclusão do inquérito. A corporação afirma que Daniel está no Presídio Policial Militar. Abaixo, confira a nota completa.
"O Soldado PM Daniel Machado Figueiró encontra-se preso preventivamente no Presídio Policial Militar e afastado das funções policiais-militares desde a data dos fatos objeto da investigação da Polícia Federal (PF).
Com a conclusão do inquérito policial conduzido pela PF, que resultou no indiciamento do referido Policial Militar, a Brigada Militar adotará as providências necessárias para ter acesso aos elementos de prova produzidos no curso da investigação, a fim de subsidiar a apuração administrativa disciplinar na esfera institucional.
A partir do recebimento das informações, a Brigada Militar promoverá a instauração do processo administrativo cabível, nos termos da legislação aplicável, para apuração de eventual responsabilidade disciplinar e análise da capacidade ou não de permanência do Policial Militar nos quadros da Instituição, asseguradas, no curso do processo, as garantias do contraditório e da ampla defesa."
A defesa de Daniel, realizada pelos advogados José Paulo Schneider e Ricardo Almeida, se manifestou após a conclusão. Confira abaixo.
"A defesa técnica recebe com tranquilidade e sem surpresa a informação do indiciamento do Soldado Daniel. A conclusão apresentada pela autoridade policial já era previsível diante da forma como a investigação foi conduzida desde o seu início, enviesada e com o intuito de transformar um Policial Militar, de conduta profissional impecável, em um assassino contumaz.
Durante as investigações vários foram os momentos em que ficou evidente a ausência de imparcialidade e isenção na condução dos trabalhos. O interrogatório do Soldado Daniel, por exemplo, não foi um interrogatório, como determina a lei. Foi, na prática, um debate entre a autoridade policial e o interrogado. Na reprodução simulada, a defesa precisou escolher qual profissional iria acompanhar o ato, sendo tolhido o direito de que toda a banca acompanhasse o procedimento, enquanto, simultaneamente, mais de uma pessoa vinculada à acusação acompanhava a diligência.
Importante pontuar que há inúmeras questões não explicadas ou que merecem melhor análise, o que será tratado no âmbito do futuro processo. Uma delas é o fato de que a prova demonstra que pelo menos parte dos agentes federais sabia da existência de um Policial Militar na residência. A questão é: se sabiam, qual a razão para entrarem da forma que entraram?
Essa circunstância assume especial relevância quando analisada em conjunto com a dinâmica dos fatos. A forma de atuação adotada pelos agentes federais revela-se desproporcional diante das circunstâncias que já eram de seu conhecimento e acabou desencadeando uma situação de extrema violência no interior da residência, culminando em uma tragédia que não pode ser analisada de forma dissociada da própria atuação policial que a antecedeu.
Também não se pode construir uma narrativa unilateral acerca da dinâmica dos disparos. Houve, em verdade, uma intensa troca de tiros, com disparos realizados não apenas pelo Soldado Daniel, mas também pelos próprios policiais federais, expondo Daniel e sua esposa a risco concreto de serem atingidos.
Destaca-se, além disso, que os próprios agentes federais, quando ouvidos durante a reprodução simulada dos fatos, confirmaram que o Soldado Daniel não acreditava se tratar de Policiais Federais, tendo a todo momento pedido para os agentes se identificarem, o que comprova sua tese de que acha que estava sendo vítima de algum crime e não de uma operação policial.
A defesa confia que o futuro processo transcorrerá em um ambiente de efetiva legalidade, contraditório e imparcialidade, no qual todos esses elementos serão submetidos ao devido escrutínio e confrontados com a prova produzida sob o crivo judicial, demonstrarão que o Soldado Daniel não é a pessoa que a investigação pretende retratar e que sua conduta deverá ser analisada à luz das circunstâncias concretas em que os fatos ocorreram, inclusive sob a perspectiva da legítima defesa putativa."
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